Análise: sob as mãos de Diniz e os pés de Cano e John Kennedy, Fluminense espanta o fantasma e conquista a América

História do título tricolor, conquistado neste sábado, também narra a trajetória do jovem atacante, resgatado pelo treinador

Cano, autor do primeiro gol, levanta a taça da Libertadores — Foto: Alexandre Cassiano

O GLOBO

De azarão a campeão. A história do título do Fluminense, conquistado neste sábado, na vitória por 2 a 1 (1 a 0, na prorrogação) sobre o Boca Juniors, no Maracanã, também narra a trajetória do responsável pela maior glória do tricolor em mais de 120 anos. O jovem John Kennedy, autor do gol decisivo, estava distante do clube que o projetou para o futebol no começo do ano. Sob as mãos de Fernando Diniz, teve seu recomeço e agora completa o retorno triunfal.

O camisa 9 fez gol em todas as fases de mata-mata do torneio. Nas oitavas, sacramentou a classificação contra o Argentinos Juniors. Nas quartas, abriu o caminho para vitória contra o Olimpia, no Paraguai. Na semifinal, iniciou a remontada histórica de seis minutos, contra o Internacional, que colocou o Fluminense na decisão contra o Boca.

Desta vez, não foi titular, entrou durante o jogo. Mas a grande novidade que Diniz implantou neste meio de temporada tricolor precisava ser o nome do título. E assim o fez. Quando entrou em campo, no lugar de Ganso, parecia que o Maracanã todo sabia que seria ele a definir essa decisão. Era uma questão apenas de saber qual momento do jogo.

Mas esse momento parece ter sido uma eternidade. Horas antes de a bola rolar, as torcidas já ocupavam seus lugares no Maracanã. Ao Sul, um mar tricolor que ondulava com as bandeiras e faixas nas cores verde, grená e branca entoava o hino que embalou o Fluminense nesta Libertadores. “Vamos tricolores, vamos ganhar a Libertadores”. Era um misto de crença e vontade no mais alto volume para atrair o sonhado título.

Ao Norte, o azul e amarelo do Boca tomavam conta, mas os xeneizes não transpareciam o mesmo ímpeto dos tricolores. Os braços incansáveis que costumam reger o time pareciam ter perdido força pelos festejos dos últimos dias em Copacabana. Ou eles estavam apenas guardando a energia quando fosse realmente necessária.

O clima das arquibancadas também conta a história do jogo. A começar pela confiança que se deposita em cada jogador. Não é à toa que a torcida tricolor clama por Germán Cano e Fernando Diniz num tom acima dos demais. Louros ao artilheiro de toque único do time e ao técnico capaz de fazer o Fluminense jogar bonito, de forma eficiente e de mudar tudo quando preciso com suas cartas na manga.

Pela atuação deste sábado, a justiça também foi feita. Desde o começo, quando os argentinos encalacravam sua defesa e buscavam contra-ataques, e o Fluminense quebrava a cabeça para chegar ao gol de Romero, Cano era o mais aplicado, parecia obstinado a encontrar seu destino.

Primeiro, uma cabeçada. Depois, um chute cruzado sem perigo de canhota. Na terceira vez, agiu à melhor maneira: desvencilhando-se, encontrando o espaço na hora certa, dando um toque, aos 35 minutos. Esse é o artilheiro da Libertadores, um argentino que fez explodir o Maracanã e calou milhares de compatriotas presentes no estádio.

A bola veio de outros jogadores que nunca se esconderam da responsabilidade. Após tabelar com Arias, Keno presenteou o artilheiro com uma assistência açucarada. Mas o Fluminense tem suas falhas, e jogadores que não atuaram à altura do esperado na decisão, como Ganso e Marcelo, que seriam substituídos no final do segundo tempo. A opção por Martinelli, no lugar de John Kennedy, também deixou o time mais preso.

Com a vantagem em mãos e uma torcida dominante no estádio, tudo parecia a favor do tricolor. Ainda havia outro componente. Na fase mata-mata desta edição da Libertadores, o Boca não havia saído atrás no placar. Como será que a equipe portenha, inferior tecnicamente e com um jogo mais defensivo, reagiria à nova situação.

Pois bem. Nunca se pode duvidar de um gigante sul-americano, que buscava seu sétimo título de Libertadores para se igualar ao também argentino Independiente como maiores vencedores da América.

Também não se pode duvidar de uma instituição que sabe atuar sob o nervosismo – e catimbar, e muito, quando preciso. Algo que estava latente a cada minuto que se passava do segundo tempo. A tensão do título próximo crescia dentro de campo e também era sentida nas arquibancadas por parte dos titulares. Desta vez, não podia dar errado.

Mas o Boca não estava preocupado com a dor tricolor que perdura há 15 anos. Na crescente batalha de torcidas de lado a lado, a equipe emergiu junto. Num jogo bem mais franco que o do primeiro tempo, Advíncula recebeu de Medina pela direita, em erro de marcação de Marcelo, cortou e desferiu uma chutaço no canto direito de Fábio. Agora, era a vez de um peruano, artilheiro do time na competição, fazer o setor Norte tremer e os brasileiros se calarem aos 26 minutos.

Jogo aberto. A vitória poderia ter saído para qualquer um dos times no tempo normal. Diniz, em uma das suas especialidades, deu nova cara ao tricolor. Colocou velocidade com John Kennedy e Diogo Barbosa, que quase marcou no último lance da partida. Mas o Maracanã com quase 70 mil pessoas queria que a emoção durasse mais tempo.

Meia hora a mais, com dois times modificados. Praticamente um novo jogo. Porém, mas mesmas intenções. O Fluminense buscaria o gol sempre. O fantasma dos pênaltis na final de 2008 contra a a LDU, presente no semblante de cada tricolor nas arquibancadas, não podia assombrar novamente. Ao Boca, isso não era motivo de susto. Romero pegou seis pênaltis nas fases de mata-mata, todas vencidas desta forma pelos argentinos até chegar à decisão.

A ousadia de Diniz, que preferiu iniciar a partida de maneira mais segura com Martinelli, foi recompensada. Um técnico que sabe ler o jogo e viu seus dois homens de confiança abaixo do esperado. Ganso e Marcelo saíram para dar lugar aos dois nomes que mudariam a história do tricolor. Diogo Barbosa lançou Keno, que ajeitou para John Kennedy bater de primeira. A segunda explosão tricolor no Maracanã, agora na prorrogação.

Mas esse título sonhado também teria de ser suado. Quando o momento da festa parecia nas mãos, Kennedy recebeu o segundo amarelo por causa da efusiva comemoração com a torcida no setor Sul. Um susto, logo aliviado com a expulsão de Fabra por tapa no rosto de Fábio. Poderia ter sido até mais tranquilo, mas bola de Guga caprichosamente ficou na trave já no fim do segundo tempo da prorrogação. Como os tricolores cantam desde 2009, esse é um time de guerreiros. E agora de campeões da Libertadores.

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