Perda de apoio americano à Guerra na Ucrânia preocupa Zelenski

Tensões políticas bloqueiam bilhões de dólares de auxílio americano para Kiev em meio a impasse na guerra

O presidente ucraniano, Volodymir Zelenski, observa a homenagem em frente ao Muro de Recordação dos Mortos da Ucrânia, em Kiev, no Dia das Forças Armadas da Ucrânia.  Foto: Forças Armadas da Ucrânia / AFP

Estadão

KIEV — A ansiedade aumenta na Ucrânia à medida que discórdias em Washington continuam a estancar bilhões de dólares urgentemente necessários ao financiamento da guerra — uma ajuda que, autoridades ucranianas afirmam ser crucial para manter o país funcionando enquanto a guerra com a Rússia se arrasta.

A tensão na relação entre Kiev e Washington ocorre conforme divisões políticas internas ressurgem diante do presidente Volodmir Zelenski, com temores a respeito de potenciais faltas de financiamento alimentando outras inquietações na capital. Relações entre autoridades que anteriormente mantinham a aparência de unidade publicamente estão se desgastando explicitamente.

Uma delegação de altas autoridades ucranianas visitou Washington na semana passada para pedir mais financiamento tanto para as Forças Armadas da Ucrânia quanto para o orçamento nacional — pedidos que parecem ter alcançado ouvidos moucos conforme os senadores republicanos bloquearam novamente a proposta de ajuda, que foi amarrada com medidas controvertidas de controle de fronteira.

Zelenski deveria ter discursado virtualmente à Câmara dos Deputados e ao Senado, mas sua fala foi cancelada no último minuto, conforme a sessão parlamentar descambou para uma gritaria caótica sobre as políticas dos EUA em suas fronteiras. O cancelamento foi altamente incomum para um líder que normalmente não recusa oportunidades para defender a Ucrânia, o que ocasionou dúvidas a respeito dele ter seguido conselho de colegas ucranianos ou autoridades americanas.

A embaixadora da Ucrânia nos EUA, Oksana Markarova, disse a uma TV ucraniana que, “na realidade, nada catastrófico aconteceu” e acrescentou que, “precisamente em razão deles estarem discutindo problemas internos, e não apenas da Ucrânia, nós não participamos”.

Contudo, a diferença entre aprovar bilhões de dólares em ajuda para a Ucrânia ainda este ano ou em janeiro é crítica para Kiev, afirmou a parlamentar Oleksandra Ustinova, líder do partido Holos.

Cerca de um terço do orçamento do governo ucraniano vem da assistência financeira dos EUA, afirmou ela, e se esse dinheiro não vier, Kiev poderá não conseguir pagar salários básicos para médicos, socorristas e outros profissionais.

“Será literalmente um problema enorme, porque se não sobrevivermos como Estado, nós não seremos capazes de vencer uma guerra”, afirmou Ustinova. Ela também apontou para a dependência da Ucrânia em relação a munições fabricadas nos EUA para sistemas de defesa antiaérea. Os ucranianos se preparam para um inverno rigoroso, com a Rússia novamente danificando sua infraestrutura de energia com mísseis e drones para deixar as pessoas sem eletricidade.]

Em sua passagem mais recente por Washington, Ustinova sentiu uma fadiga crescente no apoio à guerra. Ela afirmou que ouviu com frequência as perguntas, “Qual é o plano?” e “Quanto tempo isso vai levar?”.

“E eu lhes disse que infelizmente o plano que temos não pode ser coberto pelas quantidades existentes de armas”, afirmou ela. “É difícil planejarmos algo quando quando nos falta munição.”

Na quarta-feira, o Departamento de Estado anunciou US$ 175 milhões adicionais em assistência de segurança para a Ucrânia, incluindo munições para defesa antiaérea e de outros tipos, mas alertou que, sem ação do Congresso, “este será o último pacote de assistência que nós poderemos fornecer à Ucrânia”.

Permanecendo sob os holofotes

Algumas autoridades, contudo, continuaram otimistas considerando que Washington acudirá à Ucrânia antes do fim do ano. Yulia Sviridenko, 1.ª vice-premiê e ministra da economia, que visitou Washington no mês passado, tem esperança que o pacote de ajuda seja anunciado antes do Natal.

“Nós ouvimos repetidamente dos nossos parceiros que eles continuarão a nos ajudar, e eles nunca quebraram suas promessas. Nós não temos nenhum motivo para duvidar da nossa confiabilidade da nossa parceria”, afirmou ela.

Mas ainda existe o desafio de permanecer no primeiro plano nas mentes dos aliados. Timofii Milovanov, diretor da Faculdade de Economia da Kiev e ex-ministro, afirmou que a atenção do mundo estar se voltando para as operações de Israel em Gaza e a “mega badalada” contraofensiva da Ucrânia não ter alcançado suas expectativas contribuem para o declínio no apoio dos EUA e da União Europeia.

“A Ucrânia cairá por esse motivo? Não, é improvável”, afirmou Milovanov. “Mas muita gente morrerá? Sim, é uma guerra de atrito, uma guerra obviamente longa — agora todos percebem isso, inclusive eu.”

Fricção no topo

Tentar atribuir culpas a respeito dos motivos pelos quais a contraofensiva no leste e sul ucraniano não alcançou mais sucesso também atiçou diferenças políticas em um momento em que a Ucrânia pode querer parecer unificada aos seus parceiros, afirmou ele.

“As coisas estão difíceis, então todos estão nervosos”, disse Milovanov. “Da perspectiva racional, evidentemente esta não é a coisa certa a fazer.”

O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, afirmou em entrevista recente ao jornal alemão Der Spiegel que a Ucrânia está descambando para o autoritarismo. “Em algum ponto, nós não seremos diferentes da Rússia, onde tudo depende da vontade de um só homem.”

E então, uma semana atrás, Petro Poroshenko, que antecedeu Zelenski na presidência da Ucrânia e agora é líder da oposição no Parlamento, foi proibido pelas autoridades de deixar o país, em um ato que analistas políticos consideraram uma afronta política da parte do governo de Zelenski.

Poroshenko alegou que sua viagem ao exterior, que incluiria uma passagem pelos EUA para reuniões com legisladores e outras autoridades, tinha intenção de fazer lobby por apoio à Ucrânia. O serviço ucraniano de inteligência doméstica, ou SBU, que responde ao gabinete presidencial, declarou no sábado que impediu a partida de Poroshenko para evitar que sua viagem fosse usada pela Rússia com propósitos de propaganda.

Autoridades ucranianas e americanas também notaram uma fricção entre Zelenski e seu comandante-chefe, o general Valeri Zaluzhni. O militar de 50 anos raramente dá declarações públicas e, apesar de nunca ter revelado ambição política, sua popularidade na Ucrânia equipara-se à de Zelenski.

Analistas afirmaram que, se optar por concorrer à presidência no futuro, Zaluzhni representará o maior desafio para Zelenski. A legislação ucraniana impede que eleições sejam realizadas durante lei marcial, e Zelenski afirmou que pessoalmente é contra convocar eleições enquanto o país continuar em guerra.

Um ‘momento crítico’

As tensões entre eles aumentaram após Zaluzhni afirmar em entrevista à revista The Economist que a guerra havia chegado a um “impasse” e que “muito provavelmente não haverá nenhum desfecho profundo e belo” para Ucrânia na linha de frente como nas bem-sucedidas contraofensivas do ano passado.

Zelenski rechaçou publicamente a classificação de “impasse” feita por Zaluzhni e nas semanas que se seguiram mudanças têm sido realizadas na liderança militar do país, substituindo comandantes de forças especiais e unidades médicas. Ambas as mudanças de pessoal têm sido realizadas pelo Ministério da Defesa, passando por cima de Zaluzhni apesar dos comandantes se reportarem a ele.

A parlamentar Mariana Bezuhla, do partido Servo do Povo, de Zelenski, tem criticado Zaluzhni repetidamente no Facebook, perguntando aos seus seguidores se o comandante deve ser substituído. Klitschko e Poroshenko expressam apoio ao general.

O ministro da Defesa, Rustem Umerov, que estava em Washington na semana passada, defendeu Zelenski na Fox News afirmando que os comentários de Klitschko “indicam o começo da temporada de campanha política”. Ele também disse que apelar para negociações com a Rússia seria uma “vergonha para o mundo civilizado” e somente encorajaria o autoritarismo violento.

Muitos na Ucrânia temem que o país possa ser forçado a negociar com a Rússia se os parceiros ocidentais, incluindo os EUA, perceberem que o campo de batalha estagnou. Zelenski afirma há muito que o único desfecho aceitável para a guerra é o retorno da Ucrânia às fronteiras estabelecidas em 1991.

O presidente Biden tem pressionado o Senado a produzir rapidamente uma resolução antes do fim do ano e repreendeu os legisladores por não ainda ter aprovado a ajuda para a Ucrânia. “A história julgará duramente aqueles que viraram as costas para a causa da liberdade”, disse ele após a proposta não ser aprovada na quarta-feira.

Um graduado conselheiro de Zelenski, Andrii Yermak, que estava em Washington na semana passada, afirmou ao Instituto dos Estados Unidos para a Paz que o apoio americano continua crucial para a luta da Ucrânia. Sem isso, afirmou ele, “seria difícil (…) para as pessoas até mesmo sobreviver”.

Olena Tregub, integrante do Conselho Anticorrupção do Ministério da Defesa da Ucrânia, que monitora contratos de aquisição de armamentos, afirmou que ouviu de “pessoas envolvidas em contratos de defesa” que, “para a linha de frente, o momento crítico é agora”. Ela afirmou que a situação na linha de frente “é talvez pior do que os parceiros (da Ucrânia) estimam, porque os sinais definitivamente não são bons”, pois ela ouviu “um monte de histórias, aqui e ali, quando faltaram coisas para nossos militares”.

“Apesar da maioria na sociedade ucraniana, eles provavelmente ainda acreditam que tudo será resolvido e que estamos simplesmente em um jogo de barganhas e políticas internas nos EUA”, afirmou ela. “Mas eu temo que a situação fugirá do controle, e não há nenhum plano B. (…) Se o Congresso não aprovar o financiamento, então eu não sei — isso será muito, muito negativo para a Ucrânia.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Compartilhe esta notícia!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

pt_BRPortuguese