Falta de AstraZeneca trava antecipação de 2ª dose em ao menos 6 estados

Ministro Queiroga havia anunciado que intervalo da vacina contra Covid cairia de 12 para 8 semanas

Ampola das vacinas Pfizer/BioNTech e AstraZeneca, ambas utilizadas no combate à Covid no Brasil. Reuters/Dado Ruvic – 19.mar.2021

Por Folhapress

Raquel Lopes

BRASÍLIA

Ao menos seis estados descartam antecipar a segunda dose da vacina contra a Covid-19 a partir desta quarta-feira (15), o que contraria plano do Ministério da Saúde.

A ideia da pasta é reduzir o intervalo de aplicação de 12 para 8 semanas, mas alguns governos dizem que isso será impossível devido à falta de imunizantes.

A redução do intervalo foi anunciada pelo ministro Marcelo Queiroga (Saúde) em agosto. Porém, até a manhã desta quarta (15), a pasta não havia divulgado nota técnica com diretrizes para estados e municípios.

São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo e Rio Grande do Norte afirmaram à Folha que a medida é inviável enquanto não houver envio pelo governo federal de mais doses, em especial da AstraZeneca.

No Brasil, o imunizante é produzido pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Estados têm reclamado, nos últimos dias, da falta da vacina Oxford/AstraZeneca para a aplicação da segunda dose.

A prefeitura de São Paulo, por exemplo, começou a usar na segunda-feira (13) imunizante da Pfizer para completar a vacinação iniciada com a AstraZeneca. Trata-se da chamada intercambialidade ou vacinação heteróloga, uma prática que, de acordo com estudos, não oferece riscos e pode até trazer vantagens em alguns casos.

Há uma disputa deflagrada entre o estado de São Paulo, de João Doria (PSDB), e a gestão Jair Bolsonaro. O tucano ameaçou ir ao STF (Supremo Tribunal Federal), de novo, para garantir mais doses.

Em nota, a Secretaria de Saúde de São Paulo negou a possibilidade de qualquer antecipação.

“A redução do intervalo de tempo entre primeira e segunda dose depende primordialmente do envio de doses pelo Ministério da Saúde, cabendo também à pasta federal garantir remessas em momento oportuno para aplicação da segunda dose”, afirmou o órgão.

O cenário se repete em Santa Catarina. “Por enquanto, com as vacinas fornecidas, não há a possibilidade da redução deste período”, afirmou, em nota, a Secretaria Estadual de Saúde.

Já no Rio Grande do Norte, na segunda-feira a Secretaria Estadual de Saúde chegou a recomendar a redução de intervalo da AstraZeneca. Porém, no mesmo dia, o governo teve de recuar por falta de doses.

“A Sesap [secretaria de saúde] emitiu uma nota informativa para todos os municípios orientando que seja retomado o prazo estipulado anteriormente de 90 dias para aplicação da D2 [segunda dose] do imunizante de Oxford/AstraZeneca, para que seja possível conseguir dar vazão a demanda de pessoas a serem vacinadas com a segunda dose”, afirmou o órgão, por meio de nota.

À Folha 11 estados e o Distrito Federal disseram que ainda aguardam pela orientação do Ministério da Saúde para fazer alterações nos programas de imunização. Amapá, Goiás, Piauí, Rondônia e Sergipe não responderam.

Ao menos sete estados já reduziram o intervalo de um dos imunizantes —Pfizer ou AstraZeneca. Foram definidos prazos que variam de quatro a dez semanas.

Esse cenário é registrado no Acre, no Amazonas, em Mato Grosso do Sul, em Pernambuco, no Ceará, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. O Espírito Santo informou que reduziu o intervalo para dez semanas, mas não conseguirá encurtá-lo para oito, como prometido pelo governo federal.

A informação de que haveria a redução do intervalo a partir desta quarta-feira foi reforçada por Queiroga em entrevista na segunda na frente do Ministério da Saúde, em Brasília.

“A partir do dia 15 [de setembro], há como assegurar vacinas para isso [redução do intervalo das doses]. Se porventura a AstraZeneca, por conta de questões operacionais, faltar, eventualmente se usa a intercambialidade”, disse o ministro.

O Ministério da Saúde disse, em nota, que a redução do intervalo entre as doses de Pfizer e AstraZeneca está prevista para ocorrer na segunda quinzena de setembro, sem especificar uma data.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de intercambialidade entre doses por causa da escassez de vacinas em alguns estados, a pasta disse que não há falta de nenhum imunizante no país.

“O Ministério da Saúde recomenda a intercambialidade de vacinas Covid-19 apenas para grávidas que tomaram a primeira dose da AstraZeneca e devem completar o esquema vacinal com a vacina que não tiver o vetor viral, como Pfizer ou Coronavac”, afirmou.

Não é o que ocorre no Maranhão, por exemplo. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, 29 dos 217 municípios maranhenses interromperam a vacinação com doses de AstraZeneca por falta do imunizante.

“O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 foi atualizado nesta segunda-feira (13) pelo Ministério da Saúde, mas não consta a redução do intervalo entre as doses, como foi anunciado pelo próprio ministério”, afirmou a secretaria, em nota.

Vice-presidente do Conass (conselho de secretários estaduais de Saúde) na região Sudeste, Nésio Fernandes disse que mais importante do que a redução do intervalo da segunda dose é garantir a dose de reforço para pessoas com mais de 60 anos.

“Estamos aguardando um posicionamento do Ministério da Saúde. Pelo cronograma de doses publicado até hoje acreditamos não ser possível atender a D1 [primeira dose], antecipar a D2 [segunda dose] e aplicar a dose de reforço”, afirmou.

De acordo com fontes ouvidas pela Folha, o Ministério da Saúde deverá, mesmo assim, fazer um anúncio sobre vacinas nesta quarta-feira.

Enquanto isso, estados que haviam encurtado o intervalo podem recuar na medida. Com isso, o prazo pode voltar a 12 semanas.

“Hoje estamos usando o intervalo de 30 dias. Nos próximos dias, dependendo do cenário, podemos retomar o período de 90 dias”, disse Renata Quiles, responsável pelo Plano Estadual de Imunização do Acre e coordenadora da Rede de Frios do estado.

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