Guerra de facções: Bahia vai ficar igual ao Rio? Entenda conflito que envolve Comando Vermelho e PM

Disputa pelo tráfico agrava violência; resposta da polícia por operações, e não inteligência investigativa, piora cenário, dizem especialistas. Governo diz se pautar na legalidade e planejar reforço de efetivo

Jociane Santos Oliveira, 50, moradora da comunidade Barro Preto, chorando ao lembrar do filho Jean Oliveira Mota que tinha 26 anos. Rafaela Araújo

Estadão

Em dois dias, seis pessoas foram baleadas em zonas de conflito entre facções na Bahia. Cinco delas, suspeitas de envolvimento no tráfico de drogas, morreram em operações policiais na sexta-feira, 29. Na madrugada de domingo, 1º, uma garota de 6 anos e seu padrasto, foram executados por um bando armado que invadiu sua casa. As mortes traduzem as diferentes faces da crise de segurança pública no Estado, que pressiona as autoridades locais e o governo federal, além de expor o desafio de conter o avanço das organizações criminosas pelo País.

A morte do policial federal Lucas Caribé, durante operação no dia 15, intensificou as operações policiais. Só em setembro, foram 68 mortos – mais de dois por dia – em ações da Polícia Militar até o dia 28, segundo o Instituto Fogo Cruzado, que mapeia a violência armada no Estado. No mês anterior, tinham sido 61 – a maioria em periferias da Grande Salvador. A Secretaria da Segurança Pública não divulga balanços oficiais.

Na semana passada, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) afirmou que o Estado tem sido firme no combate à violência. Disse ainda que não determinou, em nenhum momento, que os PMs “trouxessem corpos”. Rodrigues sucedeu Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil – o PT governa o Estado desde 2007. Pressionado pela inação contra a crise, próprio governo Lula se apressou para dar uma resposta: um plano federal para tentar enfraquecer as facções, lançado esta semana.

A PM baiana já é mais letal do que a fluminense, historicamente conhecida por confrontos sangrentos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, numa tendência que se intensificou nos últimos quatro anos. E as semelhanças com o Rio não param por aí. A fragmentação e o acirramento das brigas entre facções pelo domínio do tráfico se aproximam do que ocorre nos morros cariocas.

As estatísticas criminais do Estado aparecem em destaque não só quando o tema é mortes cometidas por policiais, mas também nos homicídios totais registrados. A Bahia tem a segunda maior taxa de assassinatos por 100 mil habitantes do País, com 47,1 mortes, ainda que tenha apresentado redução entre 2021 e 2022, segundo dados reunidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Quem é quem na disputa

As disputas são protagonizadas pelo Comando Vermelho (o CV, aliado do grupo local, o Comando da Paz) contra o Bonde do Maluco, facção baiana que avança pelo Estado desde 2015. A facção do Rio, nos últimos três anos, deixou de ser apenas uma subsidiária de armas e drogas. Agora se apresenta com seu próprio nome e tenta recuperar territórios perdidos para o bando local.

“Muitas pessoas dessa organização (CV) vieram para cá, seja porque estavam muito visadas no Rio de Janeiro ou porque queriam reaver territórios perdidos”, afirma o sociólogo Antônio Lima, autor de Rastros de Fogo e Sangue e Rotas Alteradas, livros sobre o mercado paralelo de drogas em Salvador.

Já o Bonde do Maluco se associou ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção paulista que não está diretamente presente na Bahia. E, no início deste ano, outro rival do CV, o Terceiro Comando Puro, se aliou ao Bonde do Maluco. Um dos locais de disputa tem sido o Recôncavo Baiano. Na noite de sexta-feira, 29, quatro homens morreram em confronto com PMs, em Santo Amaro, a 94 quilômetros de Salvador.

A localização estratégica amplia o interesse pela Bahia. O Estado é cortado pela mais longa rodovia federal do País – a BR-116 – e tem três portos públicos e seis privados, o que facilita o fluxo de criminosos e de drogas, em transações nacionais e internacionais.

Um exemplo do aproveitamento dessa capilaridade pelos criminosos é Jequié, no sul baiano. Apontada pelo Fórum de Segurança Pública como a cidade com mais mortes violentas do País em 2022, a região é cortada pela BR-116 e outras duas rodovias.

Bandos montam barricadas e restringem acessos

Na Bahia, as facções cariocas põem em prática seus métodos de atuação, como o uso de barricadas para impedir o acesso de policiais e também de moradores a determinadas áreas de um bairro. As operações policiais vêm acompanhadas de transtornos para a população local, como aulas suspensas e interrupções na circulação de ônibus. Cidades do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte também enfrentam problemas similares.

A criança e o padrasto assassinados na madrugada de domingo – Sarah Sofia de Jesus, de 6 anos, e Adauto dos Santos, de 53 – moravam no bairro de Mata Escura, zona disputada pelo Bonde do Maluco e o CV. A mãe de Sofia conseguiu escapar. E os efeitos da guerra vão além das áreas pobres. No dia 4, uma bala perdida atingiu um apartamento no 13º de um prédio na Graça, bairro na zona nobre de Salvador.

“Assim como no Rio, há ausência de controle hegemônico do território, competições violentas por expansão de áreas de dominação, ciclos de retaliações entre organizações rivais, interesse pelo exercício da guerra em detrimento da gestão e altas taxas de letalidade em decorrência de conflitos armados”, compara Lima.

Com isso, também cresce a circulação de armas pesadas. De janeiro a setembro, foram apreendidos 46 fuzis na Bahia – no mesmo período de 2017, haviam sido 22 fuzis tirados das ruas.

Uma diferença em relação ao Rio, ao menos por ora, é a presença de milícias: grupos de policiais ou ex-policiais que agem juntos e paralelamente à atuação estatal, sob justificativa de dar proteção em áreas violentas, mas que acabam envolvidos em práticas de extorsão e outros crimes.

Baixo investimento em inteligência e repetição de ciclos de violência

O fracasso da política de segurança na Bahia, dizem especialistas e policiais ouvidos pelo Estadão, deriva da falta de investimento em inteligência para identificar os bandidos e desidratar as organizações criminosas. A estratégia de confronto nas ruas derrama mais sangue e não resolve o problema.

“Há uma dinâmica de violência que se retroalimenta. É preciso romper com essa lógica e quem pode fazer isso é o poder público. Mas, para isso, é preciso parar de fazer mais do mesmo. A saída não é pela força”, afirma Luiz Cláudio Lourenço, coordenador do Laboratório de Estudos em Segurança Pública, Cidadania e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para Lima, quanto maior a fragmentação das facções, mais haverá violência. “O que move as organizações criminosas é a expansão. E o Estado responde a isso com ostensividade. Assim, começam ciclos de retaliação”, afirma. Tradicionalmente, o PT assume um discurso bastante crítico à letalidade de ações policiais em outros Estados, como em São Paulo e no Rio de Janeiro.

“A expressão colocada é que as mortes são dano colateral do combate. Não pode ser assim. Com inteligência, minimiza os casos”, critica o agente da PF José Mário Lima, diretor do Sindicato dos Policiais Federais da Bahia. “Tem de ter operações, mas uma inteligência: tirar de circulação o dinheiro, porque os criminosos estão dominando um mercado”, acrescenta.

A inteligência policial é responsável, por exemplo, por monitorar atividades suspeitas, rastrear rotas de venda de drogas e apurar denúncias. De acordo com o Sindicato de Policiais Civis do Estado, há déficit de 40% no quadro de pessoal da corporação – o ideal seriam 10.779 agentes, mas há 5.447 em atividade.

Marcelo Werner, secretário de Segurança Pública, fez carreira como policial federal. Na corporação, foi chefe do setor de inteligência. “A gente percebe essa migração de facções de outros Estados para a Bahia. Não só a migração, mas a migração da política, da forma de agir com demonstração de beligerância, não só contra seus rivais, mas (contra) a população que vive naquela área onde a fação tenta se estabelecer”, disse Werner em entrevista coletiva no início de setembro.

Sem chegar aos chefões das organizações, “não há avanço”, segundo José Mario Lima. “Temos uma parte da comunidade refém e o Estado só aparece para confronto, o que já causa repulsa”, afirma.

Uma das saídas apontadas por especialistas para ampliar o controle sobre a atuação policial são as câmeras na farda dos PMs, a exemplo do que fizeram São Paulo e de Santa Catarina, onde foram registradas quedas na letalidade policial. Ao Estadão, em agosto, a secretaria havia informado que fazia avalições finais dos equipamentos oferecidos por uma empresa que venceu a licitação para oferecer as bodycams no Estado.

O agravamento da violência, tanto na Bahia quanto no Rio, fez até o músico Caetano Veloso falar da situação em uma carta ao papa Francisco. O artista – nascido em Santo Amaro, onde a polícia matou quatro na sexta – se disse “assustado” com a situação. “Diante dessa situação de agravamento da violência peço que Vossa Santidade volte seu olhar e suas orações para o nosso país.”

Secretaria diz adotar medidas

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia disse que entre 2016 e 2022, as mortes violentas apresentaram redução de 22,5% na Bahia. “Em 2023, de janeiro a agosto, a diminuição dos assassinatos é de 3,3%. Nesse mesmo período, os feminicídios recuaram 12% e as explosões de agências bancárias tiveram queda de 45%.”

“Nos primeiros oito meses de 2023, ações das forças de segurança prenderam pouco mais de 13 mil pessoas envolvidas em crimes, uma média de 50 por dia. Aproximadamente quatro mil armas de fogo, cerca de 14 por dia, foram apreendidas, entre elas 48 fuzis, número que corresponde ao dobro localizado em todo o ano de 2022″, acrescentou a pasta.

Sobre o déficit de pessoal, a secretaria disse ter quatro concursos em andamento. “Até o final de 2024, serão 4.500 novos policiais e bombeiros para reforçar as ações ostensivas, investigativas e de resgate no Estado. Acrescenta ainda que, após as conclusões desses concursos, novos editais serão lançados para ampliação dos efetivos.”

Sobre os indicadores de mortes cometidas por policiais em serviço, a pasta disse que as ações “são pautadas na legalidade e buscando sempre a preservação da vida”. “Ressalta ainda que de janeiro a agosto as intervenções policiais com resultado morte apresentaram redução de 4,3% na Bahia, na comparação com o mesmo período do ano passado. Salienta também que são constantes os investimentos em equipamentos, capacitação, tecnologia e inteligência para as forças de segurança do Estado”, reforçou.

O Estadão também procurou o Ministério Público Estadual, responsável por monitorar a atuação das polícias, mas não obteve retorno.

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