Lula entrega ministérios ao Centrão, mas não tem garantia de votos no Congresso

Saída de Ana Moser foi mal vista por integrantes do Planalto, e rearranjo de Márcio França deixou o PSB insatisfeito

Reunião ministerial: Lula fez triangulação de pastas na reforma — Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

O GLOBO

A minirreforma ministerial promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou o leque de partidos dentro governo, mas não necessariamente será garantia de votos no Congresso pelas duas legendas contempladas: PP e Republicanos. Além disso, há insatisfação no PSB com o destino de Márcio França, que foi realocado dentro do governo, e a forma como Ana Moser foi demitida do Esportes foi mal vista por integrantes do próprio Palácio do Planalto.

A posse dos ministros do Centrão vai acontecer na próxima quarta-feira, no Palácio do Planalto. André Fufuca, do PP, irá substituir Ana Moser no Esportes, e Silvio Costa Filho, do Republicanos, irá ficar no lugar de França.

Nem todos os parlamentares dos partidos se sentiram contemplados com o novo desenho e houve, no caso do PSB, o sentimento contrário. Há descontentamento na bancada com a mudança de França, deslocado do Portos e Aeroportos para a nova pasta de Micro e Pequenas Empresas.

O Republicanos, que ficou com o ministério de Portos e Aeroportos, emitiu nota nesta quinta-feira, 7, assinada pela Executiva Nacional do partido, reiterando que não fará parte do governo e seguirá atuando de forma independente. A nota diz que Silvio Costa Filho deverá se licenciar não somente da função de deputado federal para assumir o ministério, como também de suas funções partidárias. Ele é presidente do Republicanos em Pernambuco e primeiro tesoureiro nacional da sigla.

O texto foi articulado pelo comando nacional do partido no intuito de atender à ala da legenda que é de oposição. Embora a maior parte dos integrantes da Câmara não negue um diálogo com o governo, a sigla abriga nomes do bolsonarismo, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e os senadores Hamilton Mourão (RS) e Damares Alves (DF).

Em meio às negociações entre Silvio Costa Filho e o governo, Tarcísio chegou a mencionar a possibilidade de se desfiliar da legenda. Insatisfeito com a perda do cargo, Márcio França publicou nas redes sociais uma foto com Lula e Tarcísio, junto com um comentário irônico de que o governador estaria se aliando ao petista.

A publicação foi vista por integrantes do governo como uma crítica velada à perda de poder e à entrada no governo da legenda de seu adversário político no estado paulista. Aliados de França afirmam que a postagem foi feita para colocar Tarcísio de Freitas no debate da reforma, agora com seu partido integrando formalmente o governo.

O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), avalia que não há motivo para Tarcísio sair da legenda.

– Fica. Não tem por que sair. O partido continua independente. Silvio se licenciará – declarou.

Da mesma forma, Mourão, que foi vice-presidente de Bolsonaro, disse que ainda vai falar com Pereira sobre a escolha de Costa Filho, mas indicou que não pretende mudar de legenda.

– Muita calma nessa hora. Na minha visão não é uma decisão partidária, mas uma opção pessoal do Silvinho. Aguardo uma conversa com o Marcos.

PP independente

O PP, que irá comandar o Ministério dos Esportes com o deputado André Fufuca (MA), também deve seguir uma linha independente. Sinalização disso está no substituto de Fufuca na liderança da bancada na Câmara.

Há um acordo para eleger o deputado Doutor Luizinho (RJ), licenciado no cargo por ocupar a Secretaria Estadual de Saúde do Rio, e que voltaria para representar os deputados da legenda. O parlamentar apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado e hoje se classifica como independente ao governo Lula. Ele é um nome bastante ligado ao presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), e ao presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

Na última quarta-feira, mesmo dia em que o governo anunciou Fufuca como ministro, Luizinho ligou para Mario Negromonte Júnior (BA), que é de perfil governista e apoiador de Lula, mesmo quando o partido era da base de Bolsonaro. Negromonte avalia disputar contra Luizinho a liderança do partido. Ele já indicou, contudo, que vai desistir se o acordo pelo deputado do Rio se confirmar.

– Eu só vou se for com a vontade Ciro, Arthur e Fufuca e dos meus pares deputados federais – afirmou.

Há alas mais governistas dentro do PP, mas há também parlamentares ligados ao ex-governo Bolsonaro, como o presidente da sigla, senador Ciro Nogueira (PI), que segue fazendo críticas abertas ao governo de Lula. Essa ala não sente que a legenda foi contemplada de acordo com o tamanho da influência que tem. O PP almeja ainda abocanhar a presidência da Caixa, com a ex-deputada Margarete Coelho e todas as vice-presidências do banco.

Há também uma avaliação de que Fufuca não tem uma ascendência tão grande sobre a bancada do partido quanto tinha Lira, por exemplo, quando ele foi líder da legenda em 2020. Isso, somado ao fato de que o provável futuro líder é alguém mais ligado a Lira e Ciro Nogueira, do que ao governo Lula, indica que a bancada não terá um embarque automático na base.

Saída ‘grosseira’

No Planalto, integrantes do próprio governo avaliam que a forma como ocorreu a demissão de Ana Moser foi grosseira, por não ter sido feito um agradecimento ou mesmo dado um reconhecimento público, por parte do presidente Lula, ao trabalho comandado pela ministra em oito meses à frente do ministério. Ana Moser foi escolhida para chefiar o Esporte por Lula e chegou a ouvir do presidente que não seria substituída. Como mostrou O GLOBO, em julho, Lula sinalizou claramente à ministra que ela não deixaria o comando da pasta. Em uma conversa no Palácio do Planalto, Lula repetiu para a ministra na oportunidade que ela não precisava “se preocupar”.

Dois meses depois, Ana Moser chegou ao Palácio do Alvorada esperando a demissão. No dia anterior, Lula havia sinalizado a ela que a situação era difícil, ao tratar de sua permanência no ministério. Ao falar com Lula, a ministra lamentou o pouco tempo para trabalhar políticas de esporte e expôs sua preocupação com isso. A ministra disse a Lula que o tempo que ela esteve no comando da pasta foi insuficiente para implementar uma política como Lula gostaria.

Entre auxiliares de Moser, há dúvidas e insegurança sobre trocas de equipes, mudanças de prioridades e interrupções de projetos que estavam sendo executados. A ex-ministra passa o final de semana em São Paulo e retorna a Brasília na segunda-feira para iniciar a transição com o deputado André Fufuca.

PSB insatisfeito

A bancada do PSB, com atualmente 15 deputados, tem uma reunião na terça-feira, 12, quando a postura do partido nas votações da Câmara deverá ser debatida. Parlamentares se sentem desprestigiados com a mudança, mesmo tendo a vice-presidência com Geraldo Alckmin.

Eles alegam que em nenhum momento foram consultados ou comunicados sobre a troca. Alguns ameaçam, nos bastidores, ter uma postura independente durante as votações, ou seja, sem seguir a orientação do governo. Reclamam ainda do nome do ministério que leva “micro” e “pequeno”. Para esses, era melhor o partido ter recebido o comando de estatais e ficar sem o cargo no primeiro escalão.

—A bancada não se sente contemplada — disse o líder Felipe Carreras (PSB-PE).

Márcio França esteve no desfile de 7 de Setembro, interagiu com ministros, mas não se aproximou do núcleo próximo ao presidente Lula durante a cerimônia. O ministro demonstrou incômodo sobre como a reforma ministerial foi conduzida, com muita exposição das negociações sem que ministros diretamente envolvidos nas conversas, como Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Rui Costa (Casa Civil), o contatassem para informá-lo das possibilidades de mudança.

Como uma das mudanças envolvia seu ministério, França se sentiu apartado das negociações. O ministro só foi informado da possibilidade de saída na terça-feira, em um almoço com Lula e o vice-presidente, Geraldo Alckmin. Por outro lado, Márcio é amigo de Silvio Costa Filho e do pai do ministro, o ex-deputado Silvio Costa, e por isso a expectativa é de que a transição ocorrerá sem problemas.

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